MÚSICA, BATATAS E O ROMANTISMO DOS SUPERMERCADOS Primeira parte Na Antiguidade clássica, a música era uma das belas artes, superior às artes aplicadas e decorativas, consideradas menores e inferiores. A distinção, segundo os gregos, se deve ao fato de que a música trabalha com um dos sentidos privilegiados, a audição. O outro era a visão. Junto com a Música estavam o Teatro, a Pintura, a Escultura, a Poesia e a Arquitetura - que combina beleza e utilidade. Outro fator de diferenciação das belas artes era o caráter não-utilitário, dissociado dos ofícios manuais e do artesanato. O filósofo e crítico italiano Giambattista Vico (1668-1744) tentava entender essa barafunda lá no século XVII, depois do Renascimento e quase 800 anos depois dos gregos, mas ainda muito próximo da herança clássica. Vico ampliou, classificou e deu uma hierarquia à criação artística com a idéia das artes nobres, perfeitas e memoriais (que guardam a memória das coisas e acontecimentos), noções típicas do século XVI; além de reconhecer as artes pictóricas e as artes agradáveis, que ganharam força já no século XVIII. Naturalmente, Vico e os gregos foram superados. A música se tornou a mais popular entre as belas artes, conceito que ajudou a destruir junto com a Bauhaus, a Fotografia, o Cinema, as vanguardas artísticas da passagem para o século XX, as novas objetividades e a reprodutibilidade técnica. Ainda assim, manteve praticamente intacto seu mistério e encantamento como a mais etérea e imaterial das artes. Há quem duvide de algumas conquistas da modernidade, sempre sujeita a recaídas neoclássicas, mas o desenvolvimento da própria música tratou de acomodar o ânimo dos puristas empedernidos que não vão além dos exageros (e da beleza) do Romantismo. A música ambiente é o melhor exemplo de como a noção de belas artes foi definitivamente sepultada, principalmente a partir do período Barroco. Bach tocava órgão em missas. Mozart e Haydn animavam festas na corte tocando piano. Gustav Mahler, um dos últimos românticos, trabalhou como regente em teatros provincianos para sobreviver, tocando o que o público queria ouvir antes de dirigir o Metropolitan Opera House em Nova Iorque. Forçando a mão, esses verdadeiros criadores ocupavam parte do seu tempo fazendo música ambiente. As biografias dos maiores nomes do jazz, do rock, da música popular, atestam o ritual de passagem pela música ambiente, quando tocavam em qualquer lugar para quase ninguém ouvir. A maioria das bandas novas, independentes, não consegue escapar do périplo árduo de tocar na noite covers e versões enquanto o público se diverte e enche a cara. O fim das belas artes A música ambiente subverte um a um todos os preceitos das belas artes. Ela é, por definição, utilitária – e, modernamente, uma das artes agradáveis previstas por Vico. Na medida em que não quer chamar atenção para si, dispensa conjecturas em torno de sua materialidade e inacessibilidade, bem como o papel dos sentidos em sua apreensão. Ao que parece, na música ambiente não há mistério e encantamento que possam prender a atenção do ouvinte. Não há sentidos privilegiados na música ambiente. Ela é quente antes de Marshall McLuhan, e fria depois dele e de Brian Eno, que consagrou o termo ambient music na década de 70. 
Brian Eno em 1988 - Foto de Karen Kuehn
Brian Eno baseava o seu conceito na empresa norte-americana Muzak Inc., que desde 1934, durante os piores anos da Grande Depressão, oferecia música leve, instrumental, descompromissada, a indústrias, lojas e consumidores para aumentar a produtividade e o consumo em tempos de crise. Música de elevador, como também foi chamada, depois injustamente associada ao easy listening dos anos 50 e 60. Gênero musical bem definido e estratégia radiofônica ao mesmo tempo, o easy listening cobre um vasto horizonte que vai dos maestros James Last e Ray Conniff à música de excelente qualidade produzida no Brill Building, de onde saíram Burt Bacharach, Neil Sedaka, o casal Gerry Goffin e Carole King, além de outras relíquias pop como as girls groups – que continuam a influenciar o pop que se faz hoje. Sobre o Edifício Brill e Burt Bacharach já escrevi aqui no blog. A Muzak Inc., é claro, prosperou e hoje é um dos gigantes da produção multimídia para empresas, ainda que esteja mal das pernas. Atua em todos os canais analógicos e digitais para fornecer conteúdo no mundo inteiro em todas as plataformas possíveis e imagináveis, fornecendo dados, sons, imagens e informação em alta velocidade.

Brian Eno tocou no início do legendário Roxy Music, a formação mais original do glam, do pop e do art rock do início dos 70, fez dezenas de discos sozinho ou com parceiros como Robert Fripp (King Crimson), David Byrne (Talking Heads), Harold Budd e Daniel Lanois, entre outros. O trabalho cuidadoso, criativo e atmosférico de Brain Eno o levou à produção de uma série de bandas e artistas a partir dos anos 80. É um dos produtores do U2 - e voltou a trabalhar com a banda no recente No Line on the Horizon. A discografia de Brian Eno dá uma idéia do seu conceito de música ambiente: Music for Films e Ambient 1/Music for Airports, de 79 (em pleno pós punk); Ambient 2 e Ambient 3, de 80; Empty Landscapes, de 81; além das continuações de Música para filmes e outras paisagens sonoras. A música ambiente proposta por Brian Eno é inovadora na teoria e na prática. Na teoria quando o músico e produtor foi além da Muzak Inc. e fez música não necessariamente utilitária, apesar dos títulos de seus principais discos; ironia tipicamente inglesa. Na prática quando fez música que só aparentemente não era para ser ouvida. Brian Eno e sua ambient music privilegiavam a audição, um dos sentidos valorizados pelos gregos. Conceitualmente, mesmo entre todas as tendências modernizantes do rock e do pop dos anos 70, Eno pode ser considerado um neoclássico. Music for Airports está em todas as publicações confiáveis nas listas dos melhores discos de todos os tempos, como a quarta e ótima edição, revista e ampliada, da The Mojo Collection – The Ultimate Music Companion (2007), atualização da Mojo 1000 The Ultimate CD Buyers Guide To Rock, Pop, Soul, Jazz, Soundtracks & More do início dos anos 2000. Music for Airports aparece também como referência na Rolling Stone, Uncut, Word, Paste, Blender e nas brasileiras Pop e Bizz, sem contar a louvação em sites e blogs de música. A partir de Brian Eno, apareceram diversos subgêneros ligados ao conceito de ambient music, quase todos ligados à cena eletrônica dos 80 para cá: Ambient dub, Organic ambient music, Nature ambient music, Dark ambient, Ambient techno, Ambient house, Ambient industrial e Space music. Isso tudo ligado a uma nova percepção e recepção da música, sensorial e aberta a novos ambientes e sentidos, deslocados entre o movimento e a completa inação. Música ambiente, depois dos modernos e novos modernos (ou neoclássicos como Brian Eno) deve ser música que não atiça os sentidos ? Tem que ser música de paisagem e irrelevante ? Deve ser música para escolher batatas no supermercado ?
Escrito por sergio menezes às 00h32
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